De acordo com a própria banca, "para descartar a possibilidade de acerto ao acaso. O procedimento é justificável em um processo que visa selecionar o candidato com melhor capacidade de analisar, interpretar e responder a partir do que aprendeu, descartando o “chute”. A anulação de um item correto para cada resposta incorreta é, portanto, uma segurança a mais de que a classificação no processo se deve ao desempenho individual do candidato e não à sorte."
 
Isso só faz sentido para o chute completamente aleatório, mas, na prática, as chances de acerto são normalmente maiores que 50%. Especialmente para candidatos mais proficientes.
 
Essa não é a razão real!
 
O que a banca quer, na verdade, é evitar que questões de baixa discriminação (esse é o termo técnico da Teoria da Resposta ao Item) sejam respondidas. O objetivo da prova é eleger os melhores candidatos, mas nem todas questões cumprem bem esse papel (as ditas questões de baixa discriminação). Então, para o examinador, o melhor é estimular a não resolução dessas questões.
 
O problema é que existe um mito, difundido repetidamente por professores, de que não se deve "chutar". Ou então citam "técnicas ninjas" de chute. A análise estatística dessas "bruxarias" mostra que elas não funcionam!
 
Já mostramos que, mesmo uma questão errada anulando uma certa, o candidato deve SEMPRE marcar todas as alternativas. Entenda melhor nesse artigo.
 
O que o Cespe pode fazer para atingir seu objetivo?
 
De forma resumida, as questões de maior discriminação avaliam melhor. Idealmente, o  examinador gostaria de aplicar apenas questões desse tipo, mas na prática é muito difícil calibrá-las sem comprometer a segurança. 
 
Tipicamente, as piores questões (de mais baixa discriminação) terminam anuladas. As demais, a banca tenta diminuir suas relevâncias divulgando o mito de que não compensa "chutar".
 
Quando os candidatos entenderem que não faz sentido deixar nenhuma questão em branco, a única saída para o Cespe será mudar os editais de forma que uma errada anule duas certas.
 
 
A tabela abaixo mostra como ficaria a pontuação líquida considerando que uma questão errada anula duas certas. As colunas representam o percentual de questões que foi resolvido. A coluna mais a direita (100%), mostra o resultado de quem respondeu todas as questões. As linhas mostram candidatos com crescentes proficiências. A última linha são os melhores candidatos!
 
 
Perceba que para os candidatos de elite, mesmo uma errada anulando duas certas, a melhor estratégia é responder todas as perguntas! Para proficiências menores, deixar questões em branco é estatisticamente mais sensato. Veja que para os piores candidatos a melhor estratégia é deixar a prova em branco, o que provavelmente é a razão dessa metodologia ainda não ser adotada. Embora melhore a escolha dos melhores candidatos (objetivo do certame), essa abordagem traria distorções no resto da curva de resultado, o que seria muito difícil de explicar aos candidatos. 
 
Matematicamente, o candidato deve analisar se suas chances de acerto são superiores a 33%. Esse processo é extremamente complexo e está diretamente ligado à proficiência. Portanto, candidatos menos proficientes não só possuem menor chance de acertar as questões, mas também são menos capazes de separar as questões "fáceis" das "difíceis".
 
Para finalizar, esse mau conselho do não chute (ou de "técnicas" de chute) é apenas um entre muitos mitos difundidos atualmente, infelizmente até por bons professores. 
 
O problema é que passar em concurso não está ficando mais fácil, e, cada vez mais, os melhores candidatos estão contando com a ciência para ajudá-los. Se você tiver interesse em se preparar com o melhor da tecnologia a seu favor, não deixe de ler o nosso e-book gratuito