Introdução

A questão das cotas tem suscitado muitos debates e, mesmo consideradas constitucionais pelo STF, atualmente estão sob dois imensos riscos. O primeiro, as fraudes, sobre as quais publiquei artigo autônomo. O segundo, o ataque à meritocracia, sobre o que discorrerei ao longo de dois artigos.

Inicio deixando claro: apenas três motivos podem fazer alguém ser contra a meritocracia: 1. a incompreensão sobre o que ela é; 2. a inveja; ou, 3. a má-fé. Então, certo de que o leitor não padece dos dois últimos motivos, peço sua licença para pedir que considere os argumentos que trago.

 

Maldades contra as meninas pretas

Vamos começar falando da filha da empregada. Como já escrevi no artigo “As cotas para negros: por que aposto os meus olhos azuis”, em 2011:

Minha filha, loura e de olhos claros, estuda há três anos em um colégio onde não há um aluno negro sequer, no qual há brinquedos, professores bem remunerados, aulas de tudo; sua similar negra, filha de minha empregada, e com a mesma idade, entrou na escola este ano, uma escola sem professores, sem carteiras, com banheiro quebrado.

Minha filha tem psicóloga para ajudar a lidar com a separação dos pais, foi à Disney, tem aulas de balé. Teve problemas de matemática e providenciei, por ter dinheiro, aulas particulares. A filha de minha empregada não teve dificuldades com matemática porque a sua escola pública está sem professor de matemática. Minha filha tem playground; a outra, nada, tem um quintal de barro, viagens mais curtas.

A filha da empregada, que ajudo o quanto posso, visitou minha casa e saiu com o sonho de ter seu próprio quarto, coisa que lhe passou na cabeça quando viu o quarto de minha filha, lindo, decorado, com armário inundado de roupas de princesa. Toda menina é uma princesa, mas há poucas princesas negras com vestidos, armários e escolas compatíveis, neste país imenso.

A princesa negra disse para sua mãe que iria orar para Deus pedindo um quarto só para ela, e eu me incomodei por lembrar que Deus ainda insiste em que usemos nossas mãos humanas para fazer Justiça.

Amigos, chorei pela menina negra, por mim, por Deus, por todos nós, ao ouvir a disposição da pequena princesa em procurar auxílio. Pensei em como será difícil para ela conseguir tudo: escola, emprego, saúde, lazer, o direito de não ser ofendida, de usar turbante, se resolver fazer isso, de ser ateia, ou da umbanda, ou evangélica neopentecostal, sem ter alguém querendo impedi-la de exercer seus direitos. Eu sou do movimento negro há mais de 20 anos, sei como é, eu ando por lá, não falo ou escrevo desse assunto a partir de um lugar teórico.  Sei, por conviver não é de ontem, como é a a realidade de quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, intercâmbio, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio. Não podemos fechar os olhos a essa realidade.

E, ciente dos fatos, percebo que estão matando as chances da menina preta de ter tanto quanto a branca. Muitos, de boa-fé, ou movidos pelo justo ressentimento e ânsia por justiça e mudanças, querem jogar a menina preta aos leões achando que a estão ajudando. Este artigo é para proteger a todos, a começar pelas meninas pretas. Estão querendo excluir o que a meritocracia tem de bom e, ao fazer isso, irão prejudicar a sociedade como um todo, e mais ainda os cotistas.

A primeira maldade contra as meninas pretas é negar-lhes as mesmas oportunidades de aprendizado, alimentação, suporte psicológico, saúde e lazer de que as meninas brancas usufruem. Essa maldade também atinge meninas brancas, sim, pois 30% das pessoas mais pobres do país são dessa cor, contra 70% de pardos e negros. Não esqueçamos os brancos pobres, alerto. Ser preto e pobre é um acúmulo de desafios, mas isso não nos permite esquecer daqueles que lidam contra a pobreza sem ter que lidar contra o racismo. São dois males autônomos, acumulados ou não por uma determinada pessoa, mas ambos a serem enfrentados pela sociedade.

A segunda maldade é dizer para a menina preta que ela não precisa estudar tanto, que ela vai ter uma vaga por este ou aquele motivo, e deixá-la sem acesso à competência. Esse é o mal cometido por muitas pessoas de boa-fé: garantir a vaga na universidade, mas sem dar as condições mínimas para o desenvolvimento natural da vida nesse novo lugar. Isso não tem a ver apenas com competência (meritocracia), mas também com outras condições. As cotas tiveram sucesso em colocar negros nas faculdades, mas não são irrelevantes as perdas que estamos tendo por desistência, ou mesmo suicídio, de cotistas que não recebem o mínimo suporte para desenvolver seus estudos. No caso dos concursos, há quem pretenda garantir o cargo sem garantir a capacidade para o seu exercício, o que virá em prejuízo do cotista e também da sociedade. Ainda no caso do serviço público, surgiu até quem defendesse que as promoções por mérito fossem feitas com sistema de cotas, o que perverte a ideia de que o servidor deve ser promovido por seu desempenho, não por sua cor de pele.

Então, para que esse erro não seja cometido, é preciso discutir a meritocracia (no singular) e compreender o que são as meritocracias (no plural). Apenas pegar a menina preta e lançá-la na universidade, ou em um cargo público, é uma crueldade que não resolverá o problema, apenas o maquiará. Maquiará agora e elastecerá em um futuro próximo.  Não se pode, a pretexto de ajudar, atingir a menina de uma outra forma, e, ainda, a outras meninas pretas e a própria sociedade. Temos que curar o mal real ao invés de multiplicá-lo com arremedos de solução, com “jeitinhos” e “puxadinhos”. Por isso, desenvolvi essa explicação entre as diferentes aplicações da meritocracia, que abordo no artigo Meritocracias – Parte 2 : Geni salva a cidade.